COROAS DO CERRADO
 
 
 
 
 

Relato de WEIMAR PETTENGILL


Apenas 300km separam a capital federal de uma vida regida pelo dia e pela noite, pelas chuvas e pela seca. Pelos rios cristalinos de temperatura perfeita e o céu mais estrelado que já testemunhei.


Segundo a gíria corrente, o título desta coluna é a verbalização de um sorriso maroto, depois de algum feito empolgante. Mas se considerar o dicionário do Esporte & Aventura, acrescente o paraíso do Centro-Oeste no que diz respeito a momentos inesquecíveis, de superação e conquista, do tipo que alimentam a alma — e talvez você consiga chegar perto do que vivemos no último fim de semana, Corpus Christi de 2011.


Faço referência ao Vão do Muleque, grafado assim mesmo. Um vale que recebe o Rio Paranã, ao norte de Goiás, na divisa com Tocantins. Região Kalunga, comunidade quilombola instalada desde os tempos áureos do Brasil Colônia. Apenas 300km separam a capital federal de uma vida regida pelo dia e pela noite, pelas chuvas e pela seca. Pelos rios cristalinos de temperatura perfeita e o céu mais estrelado que já testemunhei. Onde as pessoas vivem da criação, da pesca e da plantação familiar, em casas de adobe com teto de palha, armadas com um sorriso desconfiado, mas hospitaleiro. Região das mais incríveis trilhas e estradas cavaleiras, algumas utilizadas há séculos. Outras tantas rodagens abandonadas, além de conexões maiores com trechos permanentemente patrolados. O paraíso para a bicicleta, escalada, canyoning, voo livre, caminhadas longas e o que mais você conseguir imaginar.


Já conhecia com detalhes o Vão de Almas, mais inóspito e inacessível, e o desafio dessa vez foi guiar um grupo de 13 amigos (Coroas do Cerrado, Konskritos e convidados) para uma viagem de quatro dias pelo Sertão Goiano, com apoio impecável da Suçuarana — Agência de Turismo de Aventura de Cavalcante-GO.


O projeto era pedalar muito. Horas ininterruptas, espaçadas por banhos de cachoeiras. Estradão, trilhas, down hill (descida de montanha), up hill (subidas) e vários push bikes (empurra bikes). Como diz o amigo Ivam Melo, existem quatro tipos de trilhas de MTB: de bicicleta, com a bicicleta, apesar da bicicleta e com a maldita bicicleta. E todas as alternativas seriam utilizadas. E foram.


Percorremos cerca de 250km em quatro dias, com aclive acumulado de 4.260m. Eu consumi cerca de 19 mil calorias considerando somente as 23 horas de pedal efetivo. O primeiro dia foi marcante, pelas 10 horas gastas para percorrer 72km, mas o terceiro dia ficou estampado na musculatura das pernas: em 13km, subimos 800m, algo incrível para uma jornada dessa magnitude. Felizmente, todas as noites foram regadas a banho de rio, churrasco, Heineken gelada, Pinot Noir sul-africano e uma bela macarronada para reabastecer as energias. Além de um bom papo com os amigos, iluminado pelo céu estrelado dos Kalungas.


Mais uma grande aventura, fácil de realizar. Bastou querer. E já estou querendo novamente.


Este texto foi publicado originalmente no Caderno Super Esportes do Jornal Correio Braziliense, onde o Weimar Pettengill escreve todos os domingos.


Assista o vídeo em www.youtube.com/watch?v=REvFbFlIrOY

 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ah, Muleque!
 
 
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